segunda-feira, julho 03, 2006

China: novas ameaças demográficas



Nelson Bacic Olic
Com 1,3 bilhão de habitantes a China, como se sabe, é o país mais populoso do planeta abrigando cerca de 20% da população mundial. Esse contingente humano já era enorme na época da vitória da Revolução Comunista (1949). Por volta de 1970, a população chinesa já havia atingido mais de 800 milhões de pessoas graças, em grande parte, ao estímulo dos governantes chineses, especialmente Mao Tse-tung, que via no aumento populacional um caminho para o engrandecimento do país.

O que era aparentemente bom na época de Mao se transformou num baita problema para seus sucessores, que não encontravam meios para conter a explosão populacional senão através de um rígido controle de natalidade colocado em prática no fim dos anos 1970. Se não fosse assim, é bem provável que a população chinesa seria hoje composta por 1,6 bilhões de habitantes.

O controle da natalidade posto em prática pelo governo tem sido exercido na base do “toma-lá-dá-cá”, isto é, concessão de vantagens para os que têm apenas um filho e severas penas para os que transgridem a regra. O aborto, legalizado pelo governo, pode ser feito com facilidade a custos relativamente baixos.

Além dos problemas inerentes ao seu tamanho, a população chinesa é uma fonte potencial de instabilidade devido sua composição sexual. A política de um só filho, aliada à histórica predileção dos chineses por crianças do sexo masculino, vem tendo um efeito colateral não avaliado pelas autoridades. O número de homens já supera o de mulheres em cerca de 40 milhões de indivíduos e especialistas acreditam que, por volta do ano 2020, milhões de jovens chineses do sexo masculino não poderão se casar por absoluta falta de parceiras disponíveis.

Tanto autoridades chinesas quanto especialistas de outros países acreditam que o desequilíbrio sexual da população pode levar ao aumento da violência dentro e fora da China. Enquanto no mundo nascem entre 106 e 107 bebês do sexo masculino para cada grupo de 100 bebês do sexo feminino, na China a relação média é de 117 para 100. Em alguns lugares da zona rural esse desequilíbrio é ainda muito maior.

Segundo dados do último recenseamento, dos cerca de 40 milhões de homens “excedentes”, pouco mais da metade têm menos de 20 anos. O aumento da violência contra o sexo feminino já é uma realidade quase cotidiana no interior da China. O seqüestro e venda de mulheres para camponeses que não conseguem casar são praticas admitidas em muitas regiões rurais do país. Essas ações não se limitam ao território chinês e já atingem mulheres de países vizinhos como a Coréia do Norte, Vietnã e Tailândia.

A preferência por filhos do sexo masculino está ligada a razões de cunho cultural e econômico. Além de serem mais valorizados na tradição confuciana da China, os bebês do sexo masculino representam a garantia de manutenção de seus pais na velhice. Num país onde as redes de proteção social são quase inexistentes, especialmente nas zonas rurais, os filhos carregam a obrigação de cuidar de seus pais e avós na velhice, ao passo que as filhas saem de casa para se dedicar à família de seu cônjuge.
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Os filhos do sexo masculino não só garantem a aposentadoria dos pais como ainda se constituem numa mão-de-obra essencial na economia familiar da zona rural. Talvez por conta disso é que os dirigentes chineses permitem que casais que têm o primeiro filho do sexo feminino possam tentar gerar um segundo filho quatro anos depois. Essa opção é inexistente para os casais cujo primogênito for homem.

Há indícios que esse desequilíbrio sexual (que no caso da China não encontra paralelo na história da humanidade), já causa e pode ainda causar inúmeros problemas. Estudos têm demonstrado que a maior parte dos crimes é cometida por homens jovens e sem laços familiares. Por outro lado, para tentar reduzir a violência interna, governantes podem ser tentados a incentivar campanhas militares para as quais os jovens são necessários, decorrendo dessa estratégia certas ameaças à estabilidade internacional.

A baixa taxa de natalidade e o aumento da expectativa de vida provocam outro problema, que é o rápido crescimento do número de idosos no país. Muitos especialistas afirmam que a China tem a sociedade que envelhece mais rapidamente em todo o mundo, o que coloca para o Estado o desafio de criar uma rede de seguridade social que ampare essas pessoas quando elas não estiverem mais trabalhando.

Atualmente, a faixa etária referente às pessoas com mais de 65 anos corresponde a quase 9% da população total, isto é, cerca de 115 milhões de pessoas. Na China, o número das pessoas com mais de 65 anos deverá chegar a 300 milhões por volta de 2030, cifra que será acrescida em mais 100 milhões em 2040, quando as pessoas dessa faixa etária representarão aproximadamente 25% da população total. O temor das autoridades chinesas é que a sociedade fique velha antes de ficar rica, o que agravaria ainda mais as tensões sociais.

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