domingo, junho 29, 2008

Rússia e UE: parceiros a contra-gosto

Rússia e UE: parceiros a contra-gosto - Radio Nederland, a emissora internacional e independente da Holanda - Português

quinta-feira, junho 26, 2008

NAS TELAS DO CMA

A Geografia e a História vão passar nas TELAS DO CMA.
Os alunos do Ensino Médio, futuros vestibulandos, estão convidados a aprofundar seus conhecimentos de história, através de filmes selecionados.
O ciclo começa no dia 03 de julho de 2008 e vai até 05 de dezembro de 2008.
Cada sessão, sempre as quintas-feiras, será precedida por uma palestra enfocando o tema central do filme.
Horário: 18h às 21h.
Onde: Auditório do CMA.
Inscrições a partir de 23/06 – na secretaria - (VAGAS LIMITADAS)

IDADE ANTIGA
Ø 03/07 - 300 (Esparta) Debatedores: Silmei e Ana.
IDADE MÉDIA
Ø 10/07 – O Nome da Rosa Debatedores: Silmei e Alvino.
Ø 14/08 – A Cruzada Debatedores: Jeferson e Ana.
IDADE MODERNA
Ø 28/08 – Lutero Debatedores: Lucia e Laércio.
Ø 11/09 – Syriana Debatedores: Jeferson e Fernando.
Ø 25/09 – A Missão Debatedores: Lucia e Jeferson.
IDADE CONTEMPORÂNEA
Ø 09/10- O Grande Ditador Debatedores: Ana e Alvino.
Ø 23/10 – Senhor das Armas Debatedores: Fernando e Jeferson.
Ø 06/11 – Jardineiro Fiel Debatedores: Fernando e Jeferson.
Ø 20/11 – Amistad Debatedores: Silmei.

terça-feira, junho 17, 2008

Mugabe denuncia ingerência dos EUA e Inglaterra na eleição presidencial do Zimbábue

“Os EUA entregam, por meios indiretos, US$ 7 milhões para a oposição”, denunciou o presidente Robert Mugabe


“Este país não voltará ao domínio nem ao controle dos colonizadores, nem direta, nem indiretamente”, afirmou o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, na sexta-feira, dia 13, durante o funeral de um dos principais comandantes luta de libertação do país, general de exército, Amoth Chingombe.
“Queremos mais uma vez deixar claro aos ingleses e americanos de que nós não nos sujeitamos”, acrescentou; “somos sujeitos de nós mesmos, pertencemos a nós mesmos”.
“Estamos preparados para lutar e qualquer um que queira minar o programa de reforma agrária, um marco histórico do Zimbábue, está buscando e vai encontrar guerra”, alertou Mugabe.
“No momento em que nos despedimos do general Chingombe, temos em mente que a soberania do Zimbábue, a bandeira que ele ergueu, está novamente ameaçada”, declarou o presidente.
“Tornamo-nos o foco da cobiça da Inglaterra e dos EUA. No momento em que me dirijo a vocês, Bush entrega US$ 7 milhões para que a oposição faça uso. Dinheiro enviado por meios indiretos”, denunciou.
“O primeiro-ministro, Gordon Brown, continua a intervir diariamente nos assuntos internos do Zimbábue como se fôssemos uma colônia permanente da Inglaterra”, afirmou.
“Como povo, devemos definir fronteiras claras para a governância. Não pode ser legal santificar e celebrar a instituição da oposição se sua política vai contra a própria essência da nacionalidade. Não pode ser justo quando interesses de potências estrangeiras hostis tentam virar de cabeça para baixo e subverter a vontade de nosso povo, em nome da democracia. Certamente, democracia não pode significar o direito de penhorar a soberania. A soberania não é e nunca poderá ser propriedade de um estrangeiro”.
Mugabe concluiu destacando que o general, a quem denominou de “instrutor dos instrutores” e que “ajudou a moldar o punho da resistência”, “onde quer que esteja agora, sorri, ao ver que a bandeira que ele uma vez levantou segue tremulando sem restrições nem impedimentos. Manter este juramento é o tributo mais adequado a Chingombe.

Hora do Povo

sexta-feira, junho 13, 2008

Principais elementos do Tratado de Lisboa Terra - Mundo

Principais elementos do Tratado de Lisboa Terra - Mundo



Principais elementos do novo tratado europeu, o Tratado de Lisboa, que substituirá o projeto de Constituição européia: - O Tratado de Reforma estipulado contém as emendas aos dois únicos tratados que o bloco vai conservar: o Tratado da União Européia e o Tratado sobre o funcionamento da UE.
- Cria a figura de um presidente estável da União, eleito por um período de dois anos e meio, renovável uma vez.
- Cria o novo cargo de Alto Representante da União para Relações Exteriores e a Política de Segurança, que será ao mesmo tempo vice-presidente da Comissão Européia e vai comandar um serviço de ação exterior.
- Instaura um novo sistema para o cálculo da maioria qualificada na tomada de decisões. A "maioria dupla" será adiada, no entanto, até 1 de novembro de 2014, para atender à Polônia, que obtém outras garantias.
- Desaparece o veto em 40 âmbitos de ação suplementares, entre eles asilo, imigração e cooperação policial e judicial.
- A Comissão Européia (órgão executivo), hoje com 27 membros, terá no máximo dois terços do número de Estados-membros a partir de 2014.
- Aumenta o poder de codecisão ou colegislação do Parlamento Europeu.
- A Carta Européia de Direitos Fundamentais, que ocupava toda a parte II do Tratado constitucional, não faz parte do novo documento, que porém incluirá uma menção do seu caráter vinculativo.
- O Reino Unido obtém importantes esclarecimentos e restrições na aplicação da Carta ao seu território, assim como a Polônia.
- Maior papel dos Parlamentos nacionais.
- Reconhecimento da iniciativa popular: 1 milhão de cidadãos podem pedir à Comissão uma medida legislativa.
- A União Européia terá personalidade jurídica única.
- Possibilidade dos Estados de abandonar a União.
- Novo mecanismo automático de colaboração reforçada na cooperação policial e judicial.
EFE

Entenda o Tratado de Lisboa

BBCBrasil.com Reporter BBC Entenda o Tratado de Lisboa

Tratado de Lisboa (2007)

Tratado de Lisboa (2007) - Wikipédia, a enciclopédia livre

EUROPA - O portal da União Europeia

EUROPA - O portal da União Europeia

EUROPA - Tratado de Lisboa - O Tratado em poucas palavras

EUROPA - Tratado de Lisboa - O Tratado em poucas palavras

segunda-feira, maio 12, 2008

O naufrágio do centro do mundo: entre a recessão e o colapso


A imensidão do desastre em curso, o radicalismo das rupturas que pode gerar, muito superiores às causadas pela crise iniciada em 1914, gera reações espontâneas de negação da realidade nas elites dominantes, nos espaços sociais conservadores e para além deles. Mas a realidade da crise está se impondo. Nos centros de decisão econômica, a incerteza vai se transformando em pânico.
Jorge Beinstein

A recessão instalou-se nos Estados Unidos, os subsídios aos alimentos, que cobriam cerca de 26,5 milhões de pessoas em 2006, aumentaram em 2007 para 28 milhões, nível nunca alcançado desde os anos 1960. Recentemente, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revisou para baixo suas previsões de crescimento para a economia norte-americana, prevendo uma expansão igual a zero para o primeiro semestre deste ano. De seu lado, o FMI acaba de fazer um prognóstico ainda mais grave, incluindo períodos de crescimento negativo.
Estes organismos vinham bombardeando os meios de comunicação (que por sua vez bombardeavam o planeta) com prognósticos otimistas baseados na suposta força da economia norte-americana; afirmavam que não haveria recessão e que o pior que poderia acontecer seria um baixo crescimento, rapidamente superado por uma nova expansão... Se agora admitem a recessão é porque alguma coisa muito pior está no horizonte.
Sob a aparência de várias crises convergentes abre-se diante dos nossos olhos o final do que deveríamos ver como o primeiro capítulo do declínio do Império norte-americano (aproximadamente 2001-2007) e o começo de um processo turbulento disparado pelo salto qualitativo de tendências negativas que foram se desenvolvendo ao longo de períodos de diversa duração.
De qualquer maneira, as más notícias financeiras, energéticas e militares não parecem aplacar os delírios messiânicos de Washington; pelo contrário, é como se Bush e seus falcões não fossem deixar a Casa Branca dentro de poucos meses. Continuam ameaçando governos que não se submetem aos seus caprichos, insinuam novas guerras e afirmam querer prolongar indefinidamente as ocupações do Iraque e do Afeganistão. Mesmo um ataque devastador contra o Irã ainda é possível. A cada certo tempo emerge uma nova onda de rumores bélicos apontando para o Irã, geralmente originados em declarações ou transcendidos de altos funcionários do governo.
Um ataque contra esse país teria conseqüências imediatas e catastróficas para a economia mundial: o preço do petróleo iria às nuvens, o sistema financeiro global ficaria em uma situação caótica e a recessão imperial se transformaria em uma ultra-recessão encabeçada por um dólar em queda livre. Talvez alguns estrategistas do Pentágono e do círculo de falcões mais radicais estejam imaginando um grande fogo mundial purificador, do qual emergiria vitoriosa a nação escolhida por Deus: os Estados Unidos da América. Trata-se de uma loucura, mas faz parte da configuração psicológica de uma parcela importante da elite dominante, atravessada por uma corrente letal que combina virtualidade, onipotência, desespero e fúria diante de uma realidade cada dia menos dócil.
Nos grandes centros de decisão econômica, atualmente, domina a incerteza, que vai se transformando em pânico; o fantasma do colapso começa a mostrar sua face. Enquanto isso, autoridades econômicas norte-americanas injetam massivamente liquidez no mercado, concedem subsídios fiscais e improvisam caríssimas operações de socorro para as instituições financeiras falidas, tentando suavizar a recessão e sabendo que assim aceleram a inflação e a queda do dólar: sua margem de manobra é muito pequena, a mistura de inflação e recessão torna completamente ineficazes seus instrumentos de intervenção.
A palavra "colapso" foi aparecendo com crescente intensidade desde o final do ano passado em entrevistas e artigos jornalísticos, muitas vezes combinada com outras expressões não menos terríveis, em alguns casos, até adotando sua forma mais popular (desmoronamento, morte, queda catastrófica) e, em outros, sua forma rigorosa, ou seja, como sucessão irreversível de graves deteriorações sistêmicas, como decadência geral.
Paul Craig Roberts (que no passado foi membro do staff diretivo do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e editor do Wall Street Journal) publicou em 20 de março um texto cujo título era “O colapso da potência americana” no qual descreve os traços decisivos do declínio integral dos Estados Unidos (1); em 27 de março, The Economist intitulava “Esperando o Armagedon” um artigo sobre a maré irresistível de falências empresariais norte-americanas. Em 14 de março, The Intelligencer mancheteava: “Especialistas internacionais prognosticam o colapso da economia norte-americana”, no qual recolhia as opiniões, entre outros, de Bernard Connelly, do Banco AIG, e de Martin Wolf, colunista do Financial Times.
Em 3 de abril, Peter Morici, em uma nota publicada em Counterpunch, apontava que “é impossível negar que a economia (norte-americana) entrou em uma recessão cuja profundidade e duração são imprevisíveis” (2). A título de conclusão, em 14 de abril, o Financial Times publicava um artigo de Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos, onde afirmava que “a era unipolar, período sem precedentes de dominação norte-americana, terminou. Durou umas duas décadas, pouco mais do que um instante em termos históricos” (3).
Uma degradação prolongadaPara entender o que está acontecendo, assim como seus possíveis desenvolvimentos futuros, é necessário considerar fenômenos que modelaram o comportamento da sociedade norte-americana durante as últimas três décadas, gerando um processo mais amplo de decadência social.
Em primeiro lugar, a deterioração da cultura produtiva, que foi gradualmente preterida por uma combinação de consumismo e práticas financeiras. A precarização laboral, incentivada a partir da presidência de Reagan, buscava diminuir a pressão salarial melhorando, assim, a rentabilidade capitalista e a competitividade internacional da indústria, mas a longo prazo degradou a coesão laboral e o interesse dos assalariados pelas estruturas de produção. Isso derivou em uma crescente ineficácia dos processos de inovação, que passaram a ser cada vez mais difíceis e caros em comparação com os principais competidores globais (europeus, japoneses, etc.). Um dos resultados disto foi o déficit crônico e ascendente do comércio exterior (2 bilhões de dólares em 1971, 28 bilhões em 1981, 77 bilhões em 1991, 430 bilhões em 2001, 815 bilhões em 2007).
Enquanto isso, a massa de negócios financeiros foi-se expandindo e absorvendo capitais que não encontravam espaços favoráveis no tecido industrial e em outras atividades produtivas. As empresas e o Estado requeriam esses fundos, as primeiras para desenvolverem-se, concentrar-se, competir em um mundo cada vez mais duro, e o segundo para financiar seus gastos militares e civis, que cumpriam um papel muito importante na manutenção da demanda interna.
Vamos lembrar, por exemplo, as despesas descomunais motivadas pela chamada "Iniciativa de Defesa Estratégica" (mais conhecida como "Guerra das Estrelas"), lançada por Reagan em 1983, no momento em que o desemprego atingia 10% da População Economicamente Ativa (a porcentagem mais alta desde o fim da Segunda Guerra Mundial).
Um segundo fenômeno foi a concentração de renda: no início dos anos 1980 o 1% mais rico da população absorvia entre 7% e 8% da Renda Nacional. Vinte anos depois, esse número havia duplicado e em 2007 rondava 20%: o mais alto nível de concentração desde o final dos anos 1920. Por sua vez, o 10 % mas rico passou de absorver um terço da Renda Nacional, a meados dos anos 1950, para os quase 50% de hoje (4).
Contrariamente ao que ensina a “teoria econômica”, essa concentração não derivou em maiores poupanças e investimentos industriais, senão em mais consumo e mais negócios improdutivos, que com ajuda da explosão das tecnologias da informação e da comunicação geraram um universo semi-virtual acima do mundo, quase mágico, onde fantasia e realidade misturam-se caoticamente. Por ele navegaram (e ainda navegam) milhões de norte-americanos, especialmente das classes superiores.
Junto com isso, irrompeu um processo —no início quase imperceptível, mas depois esmagador— de desintegração social, um de cujos aspectos mais notáveis é o aumento da criminalidade e da subcultura da transgressão, abrangendo os mais variados setores da população, acompanhadas pela criminalização de pobres, marginais e minorias étnicas. Atualmente, as prisões norte-americanos são as mais populosas do planeta: por volta de 1980 eram uns 500 mil presos, em 1990 em torno de 1.150.000, em 1997 eram 1.700.000 —aos que havia que acrescentar outros 3.900.000 em liberdade vigiada —, mas no final de 2006 os presos já somavam uns 2.260.000 e os cidadãos em liberdade vigiada eram 5 milhões; no total, mais de 7.200.000 norte-americanos estavam sob custódia judicial (5). Em abril de 2008, um artigo publicado no The New York Times dizia que os Estados Unidos, com menos de 5% da população mundial, têm 25% de todos os presos do planeta: um em cada cem de seus habitantes adultos estão presos; é o número mais alto a nível internacional (6).
Militarização e decadência estatalOutro fenômeno que é preciso considerar é a longa marcha ascendente do Complexo Industrial Militar, área de convergência entre o Estado, a indústria e a ciência que foi se expandindo a partir de meados dos anos 1930, atravessando governos democratas e republicanos, guerras reais ou imaginárias, períodos de calma global ou de alta tensão. Alguns autores, entre eles Chalmers Johnson, consideram que os gastos militares têm sido o centro dinâmico da economia norte-americana, da Segunda Guerra Mundial até as guerras euro-asiáticas da administração Bush-Cheney, passando pela Coréia, Vietnã, Guerra das Estrelas e Kosovo.
Segundo Johnson, que define a estratégia sobredeterminante seguida nas últimas sete décadas como "keynesianismo militar", o gasto bélico real do ano fiscal 2008 vai superar 1,1 trilhões de dólares, o mais alto desde a Segunda Guerra Mundial (7). Estes gastos foram crescendo ao longo do tempo, envolvendo milhares de empresas e milhões de pessoas; de acordo com os cálculos de Rodrigue Tremblay, no ano 2006 o Departamento de Defesa dos Estados Unidos empregava 2.143.000 pessoas, enquanto os contratistas privados do sistema de defesa empregavam 3.600.000 trabalhadores (um total de 5.743.000 postos de trabalho) aos que é preciso acrescentar uns 25 milhões de veteranos de guerra. Em resumo, nos Estados Unidos em torno de 30 milhões de pessoas (número equivalente a 20% da População Economicamente Ativa) recebem de maneira direta e indireta recursos provenientes do gasto público militar (8).
O efeito multiplicador do setor sobre o conjunto da economia possibilitou no passado a prosperidade de um esquema que Scott MacDonald qualifica como "the guns and butter economy", ou seja, uma estrutura em que o consumo de massas e a indústria bélica expandiam-se ao mesmo tempo (9). Mas esse longo ciclo esta chegando ao fim; a magnitude alcançada pelos gastos bélicos transformou-os em um fator decisivo do déficit fiscal, causando inflação e desvalorização internacional do dólar. Além disso, sua hipertrofia deu um enorme peso político às elites estatais (civis e militares) e empresariais, que foram embarcando em um autismo sem contrapesos sociais.
A crescente sofisticação tecnológica, paralelamente ao encarecimento dos sistemas de armas, afastou cada vez mais a ciência militarizada das suas eventuais aplicações civis, afetando negativamente a competitividade industrial. Esta separação ascendente entre a ciência militar (devoradora de fundos e de talentos) e a indústria civil chegou a níveis catastróficos no período terminal da ex-União Soviética. Agora, a história parece estar se repetindo.
A tudo isto soma-se um acontecimento aparentemente inesperado: as guerras do Iraque e do Afeganistão —e, de maneira indireta, o fracasso da ofensiva israelense no Líbano— mostram a ineficácia operativa do super complexo (e super caro) maquinário bélico de última geração, posto em xeque por inimigos que operam de maneira descentralizada e com armas simples e baratas, provocando uma grave crise de percepção (uma catástrofe psicológica) entre os dirigentes do Complexo Industrial Militar dos Estados Unidos e da OTAN (na história das civilizações, esta não é a primeira vez que ocorre um fenômeno deste tipo).
Contudo, a crise da hipertrofia da militarização está estreitamente associada à decadência do Estado, evidenciada pelo recuo da sua capacidade integradora (declínio da segurança social, predominância da cultura elitista em seus centros de decisão, etc.), pela degradação da infra-estrutura e por um déficit fiscal crônico e em aumento, que derivou em uma dívida pública gigantesca. Se olharmos para as últimas quatro décadas, os superávits fiscais constituem uma raridade; desde os anos 1970 os déficits foram crescendo até chegar, ao início dos anos 1990, a níveis muito altos.
Contudo, Clinton despediu-se, no final dessa década, com alguns superávits que, observados a partir de um enfoque de longo prazo, aparecem como fatos efêmeros. Mas desde a chegada de George W. Bush o déficit voltou, atingindo números sem precedentes: 160 bilhões de dólares em 2002, 380 bilhões em 2003, 320 bilhões em 2005...
Estamos agora diante de um estado imperial cheio de dívidas, cujo funcionamento não mais depende apenas do sistema financeiro nacional, mas também (cada vez mais) do financiamento internacional. Teria sido extremamente difícil para a Casa Branca lançar-se em sua aventura militar asiática sem as compras dos seus títulos pela China, Japão, Alemanha e outras fontes externas.
A dependência energéticaA tudo o que já foi dito é necessário acrescentar a dependência petroleira. Por volta de 1960, os Estados Unidos importavam 16% do seu consumo; atualmente, a importação chega a 65%. Durante muito tempo puderam importar a preços baixos, mas agora a situação mudou, a produção mundial de petróleo está se aproximando de seu nível máximo (dentro de muito pouco tempo vai começar a cair) o que, combinado com o enfraquecimento do dólar, esta levando o preço a níveis nunca antes alcançados. E a substituição parcial de combustível de origem fóssil por biocombustíveis (no qual também estão empenhada outras grandes potências industriais) reduz a disponibilidade relativa global de terras agrícolas para a produção de alimentos, o que provoca um aumento geral dos preços dos produtos da agricultura, o que, por sua vez, amplifica o efeito inflacionário.
Os Estados Unidos emergiram como um grande país industrial porque desde o início do século XX foram, também, a primeira potência petroleira internacional. Igual que a Inglaterra durante o século XIX em relação ao carvão, tiveram uma vantagem energética que lhes permitiu desenvolver tecnologias baseadas nesse privilégio e competir com sucesso com o resto do mundo. Mas, em meados dos anos 1950, prestigiosos especialistas norte-americanos, como o geólogo King Hubbert, anunciaram o fim próximo da era de abundância energética nacional. Segundo Hubbert antecipou (em 1956) a partir do início dos anos 1970 a produção petroleira dos Estados Unidos começaria a declinar: foi o que ocorreu.
A incapacidade dos Estados Unidos para reconverter seu sistema energético (tiveram quase quatro décadas para fazer isso) reduzindo ou pondo freio à sua dependência do petróleo pode ser atribuída, em primeiro lugar, à pressão das companhias petroleiras que impuseram a opção da exploração intensiva de recursos externos, periféricos, que foram sobrestimados. Poderia afirmar-se, neste caso, que a dinâmica imperialista forjou uma armadilha energética da qual agora o próprio Império é vítima.
O Estado não desenvolveu estratégias de longo prazo tendentes a economizar energia, algo que provavelmente teria desacelerado (não evitado) a crise energética atual, não só devido às pressões do lobby petroleiro, mas também porque suas cúpulas políticas (democratas e republicanas) foram mergulhando na cultura de curto prazo correspondente à era da hegemonia financeira, subordinando-se completamente aos interesses imediatos dos grupos econômicos dominantes.
Mas também deveríamos refletir sobre os limites do sistema tecnológico ocidental-moderno, que os norte-americanos exacerbaram ao extremo. A mesma coisa ocorreu em torno de objetos técnicos decisivos da cultura individualista (por exemplo, o automóvel) que definem o estilo de vida dominante e com os procedimentos produtivos baseados na exploração intensiva de recursos naturais não renováveis ou na destruição dos ciclos de reprodução dos recursos renováveis. Graças a essa lógica destrutiva, o capitalismo industrial pôde, na Europa, a partir do final do século XVIII, independizar-se dos ritmos naturais, submetendo brutalmente a natureza e acelerando sua expansão.
Isso aparecia aos admiradores do progresso dos séculos XIX e XX como a grande proeza da civilização burguesa. Uma visão mais ampla permite, agora, perceber que se tratava do desdobramento de uma de suas irracionalidades fundamentais, que os Estados Unidos, o capitalismo mais bem-sucedido da história, levou ao mais alto nível jamais alcançado.
Desequilíbrios, dívidas, queda do dólarA perda de dinamismo do sistema produtivo foi compensada pela expansão do consumo privado (concentrado nas classes altas), pelos gastos militares e pela proliferação de atividades parasitárias lideradas pelo sistema financeiro, provocando crescentes desequilíbrios fiscais e no comércio exterior e uma acumulação incessante de dívidas públicas e privadas, internas e externas.
A dívida pública norte-americana passou de 390 bilhões de dólares em 1970 para 930 bilhões em 1980, 3,2 trilhões em 1990, 5,6 trilhões em 2000 para chegar aos 9,5 trilhões em abril de 2008; por sua vez, a dívida total dos norte-americanos (pública mais privada) rondava, na última data mencionada, os 53 trilhões de dólares (aproximadamente o equivalente ao Produto Bruto Mundial) dessa quantia, 20% (uns 10 trilhões de dólares) constituem dívida externa. Apenas durante 2007, a dívida total aumentou em torno de 4,3 trilhões de dólares (equivalente a 30% do Produto Interno Bruto norte-americano) (10).
O processo foi coroado por uma sucessão de bolhas especulativas que marcaram, a partir dos anos 1990, um sistema que consumia muito além das suas possibilidades produtivas.
A partir dos anos 1970-1980 é possível observar o crescimento paralelo de tendências perversas, como os déficits comercial, fiscal e energético, os gastos militares, o número de presos e as dívidas públicas e privadas. Todas essas curvas ascendentes aparecem atravessadas por algumas tendências descendentes; por exemplo, a redução da taxa de poupança pessoal e a queda do valor internacional do dólar (que se acelerou nesta década), expressão do declínio da supremacia imperial.
A articulação destes fenômenos permite-nos delinear uma totalidade social decadente à qual se incorporam (convergem) uma grande diversidade de fatos de diversa magnitude (culturais, tecnológicos, sociais, políticos, militares, etc.).
Esta visão de longo prazo coloca a era dos falcões presidida por George. W. Bush como uma espécie de “salto qualitativo” de um processo com várias décadas de desenvolvimento e não como um fato-excepcional ou um desvio-negativo. Estaríamos diante da fase mais recente da degradação do capitalismo estatista-keynesiano, iniciada nos anos 1970, pontapé inicial da crise geral do sistema. A experiência histórica ensina que essas arrancadas rumo ao inferno quase sempre estréiam no meio de euforias triunfalistas, nas quais por trás de cada sinal de vitória está oculta uma constatação de desastre. A louca corrida militar sobre Europa e Ásia estava (ainda está) no centro do discurso sobre o suposto combate vitorioso contra um inimigo (terrorista) global imaginário, que afundou no pântano as forças armadas imperiais, das expansões desenfreadas da bolha imobiliária e das dívidas que estavam ocultas pelos números de aumento do Produto Interno Bruto e a sensação (midiática) de prosperidade.
O centro do mundoOs Estados Unidos constituem hoje o centro do mundo (do capitalismo global). O seu declínio não é apenas o da primeira potência, mas o do espaço essencial da interpenetração produtiva, comercial e financeira em escala planetária, que foi acelerando nas três últimas décadas até formar uma trama muito densa, da qual nenhuma economia capitalista desenvolvida ou subdesenvolvida pode escapar (sair dessa densa rede significa romper com a lógica, com o funcionamento concreto do capitalismo composto por classes dominantes locais altamente transnacionalizadas).
Durante esta década, a expansão econômica na Europa, China e outros países subdesenvolvidos e o modesto (efêmero) fim do estancamento japonês costumavam ser mostrados como o restabelecimento de capitalismos maduros e a ascensão de jovens capitalismos periféricos, quando, na verdade, tratou-se de prosperidades estreitamente relacionadas com a expansão consumista-financeira norte-americana.
Os Estados Unidos representam 25% do Produto Bruto Mundial e esse país é o primeiro importador global: em 2007 comprou bens e serviços por 2,3 trilhões de dólares, é o principal cliente da China, Índia, Japão e Inglaterra, e é o primeiro mercado extra-europeu da Alemanha. Mas ,é sobretudo, no plano financeiro, área hegemônica do sistema internacional, onde destaca sua primazia. Por exemplo, a rede dos negócios com produtos financeiros derivados (mais de 600 trilhões de dólares registrados pelo Banco da Basiléia, ou seja, umas 12 vezes o Produto Bruto Mundial) articula-se a partir da estrutura financeira norte-americana, as grandes bolhas especulativas imperiais irradiam para o resto do mundo de maneira direta ou gerando bolhas paralelas, como foi possível comprovar com a experiência recente da especulação imobiliária nos Estados Unidos e seus clones diretos na Espanha, Inglaterra, Irlanda ou Austrália e indiretos, como a superbolha bursátil chinesa.
Se observarmos o comportamento econômico das grandes potências vamos comprovar em cada caso como suas esferas de negócios superam sempre os limites dos respectivos mercados nacionais e, inclusive, regionais, cuja dimensão real é insuficiente do ponto de vista do volume e da articulação internacional das suas atividades. A União Européia está solidamente atada aos Estados Unidos a nível comercial, industrial e, principalmente, financeiro; o Japão acrescenta a isso sua histórica dependência das compras norte-americanas; por sua vez, a China desenvolveu sua economia no último quarto de século sobre a base de suas exportações industriais para os Estados Unidos e países como Japão, Coréia do Sul e outros, fortemente dependentes do Império.
Finalmente, o renascimento russo gira em torno de suas exportações energéticas (principalmente dirigidas para a Europa), sua elite econômica foi estruturando-se desde o fim da URSS multiplicando suas operações em escala transnacional, especialmente seus vínculos financeiros com a Europa Ocidental e os Estados Unidos. Não se trata de simples laços diretos com o Império, mas da reprodução ampliada e acelerada de uma complexa rede global de negócios, mercados interdependentes, associações financeiras, inovações tecnológicas, etc., que integra o conjunto das burguesias dominantes do planeta. O mundo financeiro hipertrofiado é seu espaço de circulação natural e seu motor geográfico são os Estados Unidos, cuja decadência não pode ser dissociada do fenômeno mais amplo da chamada globalização, ou seja, a financeirização da economia mundial.
Poderíamos visualizar o Império como sujeito central do processo, seu grande beneficiário e manipulador e, ao mesmo tempo, como seu objeto, produto de uma corrente que o levou até o mais alto nível de riqueza e degradação. Graças à globalização, os Estados Unidos puderam consumir em excesso, pagando ao resto do mundo com seus dólares desvalorizados e impondo seu entesouramento (na forma de reservas) e seus títulos públicos, que financiaram seus déficits fiscais. Contudo, foi também graças ao parasitismo norte-americano que europeus, chineses, japoneses, etc., puderam colocar no mercado imperial uma porção significativa das suas exportações de mercadorias e de excedentes de capitais.
Nesse sentido, o parasitismo financeiro, produto da crise de sobreprodução crônica, é, ao mesmo tempo, norte-americano e universal; a outra cara do consumismo imperial é a reprodução de capitalismos centrais e periféricos que precisam ultrapassar seus mercados locais para fazer crescer seus benefícios. Isso é evidente nos casos da Europa Ocidental e do Japão, mas também no da China, que exporta graças aos seus baixos salários (comprimindo seu mercado interno).
O que está afundando agora não é a nave principal da frota (se assim fosse, numerosas embarcações poderiam salvar-se); há somente uma nave e é seu setor decisivo que está fazendo água.
Horizontes turbulentos e ilusões conservadorasDevemos colocar em seu contexto histórico as atuais intervenções dos Estados dos países centrais destinadas a contrabalançar a crise. Nos últimos meses, proliferaram ilusões conservadoras referentes ao possível descolamento de várias economias industriais e subdesenvolvidas da recessão imperial, mas os fatos vão derrubando essas esperanças. Junto com elas apareceu a fantasia do renascimento do intervencionismo keynesiano: segundo essa hipótese, o neoliberalismo (entendido como simples desestatização da economia) seria um fenômeno reversível e novamente, como há um século, o Estado salvaria o capitalismo.
Na verdade, nas últimas quatro décadas ocorreu nos países centrais um fenômeno duplo: por um lado, a degradação geral dos Estados que, mantendo seu tamanho com relação a cada economia nacional, ficaram submetidos aos grupos financeiros, perderam legitimidade social. Por outro lado, foram progressivamente ultrapassados pelo sistema econômico mundial, não só pela sua rede financeira, mas também por operações industriais e comerciais que burlavam os controles (cada vez mais frouxos) das instituições nacionais e regionais.
Nos Estados Unidos, esse processo avançou mais do que em nenhum outro país desenvolvido, nunca foi abandonado o histórico keynesianismo militar: pelo contrário, o Complexo Militar-Industrial hipertrofiou-se, articulando-se com um conjunto de negócios mafiosos, financeiros, energéticos, etc., que se transformou no centro dominante do sistema de poder, apropriando-se grosseiramente do aparato estatal até transformá-lo em uma estrutura decadente.
Nos países centrais, o estado intervencionista (de raiz keynesiana) não precisa retornar, porque nunca foi embora. Ao longo das últimas décadas, obediente às necessidades das áreas mais avançadas do capitalismo, foi modificando suas estratégias, reforçando a concentração de renda e os desenvolvimentos parasitários, modificando sua ideologia, seu discurso (ontem integrador, social, produtivista-industrial; hoje elitista, neoliberal e virtualista-financeiro).
E no mundo subdesenvolvido, onde o estatismo regrediu até ser triturado, em muitos casos, pela onda depredadora imperialista, a desestatização foi sua forma concreta de submissão à dinâmica do capitalismo global. Lá, o retorno ao Estado interventor-desenvolvimentista de outras épocas é uma viajem no tempo fisicamente impossível: as burguesias dominantes locais, seus negócios decisivos, estão completamente transnacionalizados ou sob a tutela direta de empresas transnacionais.
Agora, em plena crise, ficam a descoberto os dois problemas sem solução aos olhos do Estado desenvolvido (imperialista): sua degeneração estrutural e sua insuficiência, sua impotência perante um mundo capitalista grande e complexo demais. É o que aponta Richard Haas no artigo citado acima, embora sem dizer que não se trata de uma reconversão positiva sobredeterminante do capitalismo internacional o que está encurralando o Estado norte-americano e os outros estados centrais, mas um fenômeno mundial negativo que de maneira rigorosa deveríamos definir como decadência global (econômica-institucional-política-militar-tecnológica).
É por isso que o paralelo que agora está na moda em certos círculos de especialistas entre a implosão soviética e a provável futura implosão dos Estados Unidos é totalmente insuficiente, porque existe, entre outras coisas, uma diferença de magnitude decisiva, o hiper-gigantismo do Império faz com que seu naufrágio tenha um poder de arrastamento sem precedentes na história humana. Mas também porque os Estados Unidos não constituem “um mundo à parte” (marginalizado), mas são o centro da cultura universal (o capitalismo), a etapa mais recente de uma longa história mundial ao redor do Ocidente.
A imensidão do desastre em curso, o extremo radicalismo das rupturas que pode vir a gerar, muito superiores às causadas pela crise iniciada em 1914 (que provocou o nascimento de um longo ciclo de tentativas de superação do capitalismo e, também, do fascismo, tentativa de recomposição bárbara do sistema burguês) gera reações espontâneas de negação da realidade nas elites dominantes, nos espaços sociais conservadores e para além deles. Mas a realidade da crise está se impondo. Todo o edifício de idéias, de certezas de diversos matizes, construído ao longo de mais de dois séculos de capitalismo industrial, está começando a apresentar rachaduras.
* Economista argentino, professor na Universidade de Buenos Aires. É autor, entre outros livros, de "Capitalismo senil, a grande crise da economia global".
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Notas
(1), Paul Craig Roberts, The collapse of American power, Online Journal, 20-03-2008.
(2), Peter Morice, Bush Administration Dithers While Rome Burns. The Deepening recesion, Counterpunch, April 3, 2008.
(3), Richard Haass, What follows American dominion?, Financial Times, April 16, 2008.
(4), Center on Budget and Policy Priorities.
(5), U.S. Department of Justice - Bureau of Justice Statistics.
(6), Adam Liptak, American Exception. Inmate Count in U.S. Dwarfs Other Nations, The New York Times, April 23, 2008
(7), Chalmers Johnson, Going bankrupt: The US's greatest threat, Asia Times, 24 Jan 2008.
(8), Rodrigue Tremblay, The Five Pillars of the U.S. Military-Industrial Complex, September 25, 2006, http://www.thenewamericanempire.com/tremblay=1038.htm.
(9), Scott B. MacDonald, End of the guns and butter economy, Asia Times, October 31, 2007.
(10), Grandfader Economic Report (http://mwhodges.home.att.net/nat-debt).
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

sexta-feira, maio 02, 2008

Pentágono monta frota naval para América Latina e Caribe

O Pentágono anunciou a criação de uma frota naval que tem como alvo a América Latina e o Caribe, com sede na Flórida. Antes, a região estava na mira da 2ª Frota (Atlântico), agora dividida. Ao comunicar sua criação, o almirante Gary Roughead, afirmou que a nova frota “mandará uma mensagem”. Recentemente, o comandante do Comando Sul, almirante James Stradrivis, havia defendido em depoimento no Congresso dos EUA que a nova frota deveria ser encabeçada por um porta-aviões nuclear, para “auxiliar” os Estados Unidos “no contraterrorismo”. Há décadas, o Pentágono colocou o mundo inteiro sob “supervisão” das suas tropas, aviões e frotas, função que na América Latina é atribuída, por eles, ao Comando Sul, despejado há anos do Panamá. Há poucos meses, o Pentágono também criou um “Comando da África”, que continua sem sede porque nenhum país africano deseja ser a “sede”. Vão acabar tendo de sediá-lo no Texas ou em Utah.
HP

quinta-feira, maio 01, 2008

As estratégias política e ideológica dos EUA

Em dois capítulos de seu livro “Quinhentos anos de periferia”, que publicamos hoje, o secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, mostra como os EUA tentam impor sua hegemonia política e ideológica através da pretensa “missão” de defesa da liberdade
SAMUEL PINHEIRO GUIMARÃES


A grande estratégia política americana pode ser resumida na idéia de manter a hegemonia política americana em âmbito mundial, adquirida com a Segunda Guerra, por meio de um sistema político internacional que garanta a igualdade soberana dos Estados, sem contestação pela força de suas fronteiras, e a autodeterminação para fins de organização política interna.
Essa grande estratégia tinha e tem como objetivos intermediários:
1. Implantar por tratado e preservar uma organização política internacional, de âmbito universal, de duração indefinida e garantir o direito de veto dos Estados Unidos nas decisões dessa organização e a preponderância das decisões do governo americano sobre qualquer decisão internacional.
O desejo de evitar novos conflitos mundiais que pudessem colocar em risco a hegemonia do sistema capitalista-liberal democrático, sob a liderança anglo-saxônica; a inexistência de reivindicações territoriais americanas; sua certeza de que, na qualidade de maior potência econômica, financeira e comercial, a paz garantiria sua influência e hegemonia econômica e política no mundo; a necessidade de combater a tendência isolacionista interna; a consciência que de que sua força militar seria insuficiente para manter, sozinha, a paz conseguida em 1945, inclusive por causa do poderio militar convencional soviético – tudo isso fez Roosevelt ressuscitar o ideal de segurança coletiva, de Wilson.
A implantação, por tratados, de uma organização política internacional, de âmbito universal, de duração indefinida, se tornou o grande objetivo após 1945 e o principal instrumento de “organização” da comunidade “caótica” de Estados e da política exterior americana. A Carta das Nações Unidas – elaborada pelo Departamento de Estados dos Estados Unidos e aceita em sua essência pelas quatro potências patrocinadoras da Conferência de São Francisco, duas delas sem poder econômico, militar ou político e a outra satisfeita com sua aceitação na condição de grande potência e segura de que a nova organização não se poderia voltar contra ela graças ao direito de veto – foi praticamente aceita sem modificações pelos países participantes da conferência, satisfeitos com a garantia do fim do isolacionismo americano e gratos por terem sido salvos do nazismo.
Nessa discussão há dois pontos principais a reter. Primeiro, foram criadas duas classes de Estado: os que detêm o poder de impedir a ação das Nações Unidas e os que não detêm esse poder. Estes últimos são obrigados a cumprir as decisões do Conselho de Segurança, órgão supremo, com poder de exercer a força militar e de obrigar, por meio de sanções, o comportamento dos Estados. Segundo, para a política exterior americana, as Nações Unidas (e qualquer outro organismo internacional) são uma criatura sua e não um organismo que tivesse resultado de decisão soberana, livre e consensual da comunidade internacional, vista como um todo ou regional. Tais organizações são úteis quando convenientes e se tornam descartáveis quando inconvenientes ou quando tomam posições contrárias a seus interesses. Assim, o direito de veto que se auto-atribuíram os Estados Unidos e que decidiram partilhar com um grupo restrito de Estados, assim como a idéia de que as decisões do Estado americano são superiores a qualquer decisão de organismos internacionais e sua disposição de enfraquecer, desrespeitar as normas ou retirar-se desses organismos sempre que estes contrariem os desígnios da política americana são um princípio central da estratégia dos Estados Unidos.

2. Agir para a implantação e permanência de regimes políticos, democráticos e representativos se isso for conveniente, em terceiros países que melhor assegurem a influência e a defesa dos interesses políticos e econômicos americanos.
A internacionalização da economia e da sociedade americana, em termos de investimentos, de acesso a materiais estratégicos, de dependência da sua indústria em relação a insumos estratégicos importados, de mercados para seus bens e capitais, da necessidade de estacionamento de tropas americanas no exterior, de livre acesso de seus navios a águas e portos estrangeiros, de proteção de grande número de homens de negócios americanos “expatriados”, confere importância à existência de governos em terceiros países que melhor assegurem a influência e a proteção dos interesses políticos e econômicos americanos.
A natureza democrática desses regimes é uma circunstância desejável, em especial pela maior transparência dos procedimentos legislativos democráticos, a maior independência do Judiciário e a redução do poder discricionário do Executivo; isso, a contrario sensu, ao não existir nos regimes autoritários, dificulta o exercício de influência americana e pode levar a surpresas, por causa de mudanças súbitas e imprevisíveis de política.
O requisito essencial é a atitude em face dos interesses americanos. Assim, além da longa tolerância, apoio e até promoção de regimes autoritários na América Latina, na África, na Ásia e mesmo na Europa, e apesar da retórica democrática atual, os regimes autoritários e oligárquicos são perfeitamente tolerados e tratados com grande consideração, apesar de serem, em muitos casos, monarquias absolutas ou regimes de aparência democrática e republicana, porém autoritários.

3. Auxiliar os movimentos políticos de oposição a governos que contrariem os interesses econômicos americanos e contestem as suas iniciativas políticas.
A política americana de auxílio a movimentos políticos de oposição a governos que contrariam interesses americanos e contestam suas iniciativas políticas se desenvolveu durante toda a Guerra Fria. De forma discreta e encoberta, em parte pela necessidade de aparentar respeito ao princípio de não-intervenção nos assuntos internos dos Estados, consagrado na Carta das Nações Unidas, essa política se exercia por meio da Central Intelligence Agency (CIA) e de outras agências americanas, ou indiretamente, pela negativa de cooperação com os governos, o que auxiliava a oposição a eles e criava condições favoráveis à sua eventual substituição.
A partir do governo Carter, que gradualmente tornou a política de defesa de direitos humanos uma razão para intervir em assuntos internos de outros países, e em seguida no governo Reagan, os Estados Unidos passaram a apoiar abertamente movimentos, inclusive armados, contrários a governos “inimigos”, como ocorreu na Nicarágua, em Angola e no Afeganistão.
A técnica subversiva de favorecer e apoiar, inclusive com armas e recursos, províncias, minorias étnicas ou tribais e seitas religiosas contra o governo central, democrático ou não, que se oponha a interesses americanos, é uma constante na política americana, anterior a Reagan e Carter, os quais apenas a “escancararam” e “legitimaram”.

A ESTRATÉGIA IDEOLÓGICA

A grande estratégia americana pode ser resumida na idéia de manter a hegemonia ideológica americana adquirida com a vitória na Segunda Guerra Mundial e de promover a aceitação dos modelos americanos políticos, econômicos e sociais como o padrão ideal a ser alcançado por todos os países.
A política exterior americana só pode ser compreendida ao se observar o que a sociedade americana pensa de si e o que o seu governo pensa de si e da sociedade americana.
A sociedade americana considera que seu sistema político é o mais perfeito jamais desenvolvido pelo homem. A prova disso seria sua permanência no tempo e a inexistência de interregnos ditatoriais desde a Constituição de 1787.
A sociedade americana considera que seu sistema econômico conseguiu criar a maior e mais dinâmica economia do mundo, em que existe igualdade de oportunidades, em que as diferenças de renda – quando existem – não são excessivas e na qual as que existem são “naturais”, em que os mercados são livres e competitivos, em que o poder econômico não controla o governo e o Estado.
A sociedade americana acredita que sua política exterior é essencialmente pacífica, que as ações militares que empreende visam ao bem-estar da comunidade internacional e nunca o proveito para os Estados Unidos e que os demais Estados têm uma inata tendência agressiva, expansionista e competitiva.
A sociedade americana considera que é sua missão, como principal Estado, preservar os valores ocidentais – que seriam a liberdade política e religiosa, a democracia e o capitalismo – no mundo e lutar pela sua difusão contra seus inimigos.
Os objetivos intermediários da estratégia ideológica americana podem ser assim descritos – naturalmente de forma sintética.

1. Garantir o livre acesso dos sistemas de divulgação do American way of life a todas as sociedades.
Esse objetivo é buscado com a defesa dos princípios de “liberdade de informação” e a oposição a toda política de proteção à produção cultural, em qualquer país, tais como quotas de exibição em cinema, televisão e vídeo, políticas estatais de subsídio às artes e a seus meios de difusão. A importância que atribuem à questão ideológica aparece na defesa do acesso das agências noticiosas e dos jornalistas americanos a qualquer país e na objeção à criação de agências estatais de notícias. Os Estados Unidos desligaram-se da Unesco quando a instituição decidiu criar uma nova ordem internacional da informação.

2. Promover a divulgação dos ideais americanos por meio de sistemas de treinamento profissionais para prováveis integrantes das futuras elites de terceiros países.
Esse objetivo foi promovido pela United States Information System (Usis) e os programas de bolsas de estudo das universidades, das fundações, do programa Fullbright e outros, em especial a partir da criação da United States Agency for International Development (Usaid). Esse programa, de efeitos em longo prazo, mostra hoje seus resultados em países da periferia. Em diversos deles, as equipes de política econômica – e às vezes os ministros de Estado – tiveram sua formação profissional nos Estados Unidos.

3. Garantir o controle dos secretariados de organismos internacionais multilaterais com capacidade de formulação ideológica “internacionalista”.
Os secretariados de organismos internacionais, pelas características do sistema de distribuição geográfica dos cargos e pela vocação idealista e “internacionalista” de seus integrantes, em especial nas décadas iniciais das Nações Unidas, tenderam a desenvolver idéias e teorias que, levando em consideração as assimetrias do poder econômico e político, foram tomadas como desafiadoras aos interesses americanos. Assim, o controle progressivo desses secretariados, a redução de dotações e a mudança de sua orientação, em especial no caso do setor econômico das Nações Unidas, foi considerado objetivo estratégico importante, razoavelmente alcançado nos casos da Cepal, do BID, da Unctad e da Unido, se alinharam progressivamente com a ideologia econômica “correta” do Banco Mundial, do FMI e da OMC.
4. Apresentar o modelo socialista de organização política, econômica e social como intrinsecamente mau, destruidor dos valores ocidentais.
A estratégia ideológica dos Estados Unidos se beneficiou fortemente da existência do socialismo na União Soviética como sistema competitivo de organização social, política e econômica. A existência desse sistema permitiu àquela estratégia não só atacá-lo como estigmatizar, como inimiga e perigosa, qualquer crítica à política e à sociedade americana.
Tendo desaparecido o conflito Leste-Oeste, a estratégia ideológica americana deixou de se referir ao inimigo soviético e passou a considerar como sua tarefa a defesa da globalização e da democracia no plano mundial, de que são novos inimigos o fundamentalismo islâmico, o narcotráfico e o terrorismo, sempre que dificultem os interesses americanos. A ameaça deixa de ser a agressão soviética (se bem que esta seja mantida em uma espécie de freezer político) para se localizar de forma difusa.

5. Apresentar os Estados Unidos como paladinos da independência dos povos coloniais, da liberdade individual, da democracia, da iniciativa privada e dos valores espirituais do homem, da igualdade e da não-discriminação étnica, social, religiosa e econômica.
Nessa tática, os Estados Unidos se apresentaram por meios de seus aparelhos de propaganda, oficial e privada, como os paladinos da democracia (apesar de seu apoio a diversas ditaduras) contra a ditadura socialista; da independência dos povos coloniais (apesar de seu voto contrário sistemático nas Nações Unidas à independência das colônias portuguesas), da não-discriminação étnica (apesar da legislação racista do Sul e de toda discriminação até hoje existente, de fato, contra minorias em geral); dos valores espirituais do homem (apesar do culto ao consumismo, à riqueza, ao hedonismo); da igualdade social e econômica (basta ver as escolas públicas e o sistema universitário de alta qualidade aos quais as elites têm acesso especial pela riqueza ou pela influência) e religiosa.

quarta-feira, abril 23, 2008

O que estamos fazendo no Haiti?

O que estamos fazendo no Haiti?
A situação do Haiti poderia ser a história de qualquer pequena nação empobrecida e ocupada por forças de paz internacionais, que encobrem o intervencionismo das grandes potências. Contudo, a situação é diferente: desta vez, a missão está dirigida por governos de esquerda e progressistas: Brasil, Uruguai, Argentina, Equador e Bolívia.
Pablo Stefanoni*
Há alguns dias, os haitianos saíram às ruas para protestar contra o brutal aumento nos preços dos alimentos. A resposta da Polícia —apoiada pela Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah)— foi a repressão, que custou a vida de pelo menos cinco manifestantes e provocou meia centena de feridos.
O Haiti não é apenas a nação mais pobre da América Latina, senão que foi o primeiro país americano que declarou sua independência, como protagonista de uma heróica rebelião de escravos. Mas sua economia foi saqueada sem piedade pela longuíssima ditadura dos Duvallier (1957-1986), primeiro o pai e depois o filho, apoiados pela França e pelos EUA.
Em 1991 foi eleito presidente o ex-sacerdote e líder popular Jean-Bertrand Aristide. Mas depois de uma primeira derrocada e da sua volta ao poder —já muito distante das suas posições progressistas iniciais—, foi derrotado e seqüestrado por um golpe militar apoiado, de novo, pela França e os EUA.
Apesar de estar no meio do Caribe, o Haiti é um grande deserto, conseqüência do desmatamento criminoso, e seus bairros populares acabaram se transformando em grandes lixeiras. Segundo um relatório de Serpaj, o Haiti produzia, há 20 anos, 95% do arroz que consumia e hoje importa 80% dos EUA.
Até aqui, esta poderia ser a história de qualquer pequena nação empobrecida e ocupada por forças de paz internacionais, que encobrem o intervencionismo das grandes potências. Contudo, a situação é diferente: esta vez, a missão está dirigida por um governo de esquerda —o do Brasil—e dela participam vários outros governos progressistas: Uruguai, Argentina, Equador... e Bolívia.
É por isso que nos surge a pergunta: as nossas tropas deveriam estar no Haiti, ombro a ombro com os exércitos de ocupação dos EUA e da França, atirando contra as manifestações populares com a desculpa de que se trata de gangues criminosas (que obviamente também existem)? Não deveria ser outra a maneira de apoiar os povos irmãos do continente por parte de governos progressistas? Por acaso não elogiamos —com justiça— a atitude de Cuba, que manda médicos para salvar vidas e não militares para acabar com elas? Finalmente, o papel da esquerda é “humanizar” as missões internacionais organizadas pelas grandes potências?
Até agora o silêncio é a única resposta para estas perguntas.
*Diretor Le Monde Diplomatique-Bolívia
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores
Agência Carta Maior

Fidel Castro: 49 anos no poder —

Fidel Castro: 49 anos no poder —

Sismicidade brasileira

Sismicidade brasileira
Terremotos no Brasil

" TIO SAM E A POLÍTICA DO BIG STICK "

" TIO SAM E A POLÍTICA DO BIG STICK "

* Manuel Cambeses Júnior

A história das intervenções dos Estados Unidos no mundo vem de longa data. Quando aparece um foco desestabilizador ou um fato social que exija uma pronta-resposta política, ou qualquer manifestação que ameace os seus interesses, a resposta, indefectivelmente, é a aplicação da força para neutralizar a adversidade. Força que, de modo contumaz, atua de forma indireta através de mecanismos camuflados que justificam sua presença como, por exemplo, a luta contra o narcotráfico. Porém, habitualmente, costumam atuar diretamente passando por cima das normas do Direito Internacional atropelando, avassaladoramente, a soberania dos povos e a própria Organização das Nações Unidas.

De um modo geral, a intervenção direta ou indireta dependerá da gravidade da situação. O grau de escalonamento da intensidade da força a empregar será diretamente proporcional à complexidade da conjuntura que se apresente.

Desde o século da emancipação datam essas intervenções. Em 1826, quando o prócer venezuelano Simón Bolivar convocou o Primeiro Congresso Pan-americano no Panamá, tentou levantar o tema da liberação de Cuba e de Porto Rico que ainda permaneciam no poder da Espanha. Porém, as manobras estadunidenses conseguiram boicotá-lo e o congresso fracassou. A partir de então, e durante o restante do século XIX e de todo o Século XX, as intervenções militares formam parte da estratégia global dos Estados Unidos.

O México sofreu enormes perdas territoriais para ao norte-americanos. A Guerra da Anexação, a partir de 1846, desencadeou a ocupação do Texas área de 690.000 Km2 pertencente ao México desde 1821 e da Califórnia, com seus 411.012 Km2, na costa do Pacífico. Pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo, assinado em 02 de fevereiro de 1848, os estadunidenses consolidaram, definitivamente, a anexação destas terras mexicanas ao seu vasto território.

Em 1914, 23.000 marines desembarcaram em Tampico, no México. Com sua frota de cinqüenta navios, apoderaram-se da cidade levando oito milhões de dólares dos cofres da alfândega.

Em 1916, intervieram na República Dominicana e lá permaneceram até 1924. Em 1963, voltaram a intervir naquele País retirando Juan Bosch do poder. El Salvador foi invadido em 1921. Em Honduras, no ano de 1924, o novo presidente foi designado a bordo do encouraçado Tacoma. Algo similar fizeram no Haiti. Em 17 de dezembro de 1914, os marines do cruzeiro Machias desembarcaram naquele país e subtrairam quinhentos mil dólares do Banco Nacional. Em julho de 1915, com o propósito de querer ensinar democracia aos haitianos, voltaram àquele País onde permaneceram por 19 anos.

Entre os dias 6 e 8 de agosto de 1945, aviões da Força Aérea norte-americana (USAF), atacaram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, utilizando, pela primeira vez na História, armamento nuclear, provocando milhares de mortes no seio da população civil japonesa.

Entre os anos de 1950 e 1953, em resposta a pedido da Organização das Nações Unidas, os norte-americanos enviaram tropas para defender a Coréia do Sul, que fora invadida pela Coréia do Norte. Neste embate perderam 33.000 mil homens.

Em 1956, durante os combates no Canal de Suez, a Sexta Frota dos Estados Unidos evacua 2.500 americanos que viviam na região e obriga a coalizão franco-israelense-britânica a retirar-se do canal.

Entre os anos de 1961 e 1975, os estadunidenses engajaram-se na Guerra do Vietnã como aliados dos sul-vietnamitas. Nesta malfadada guerra, um verdadeiro fracasso para as Forças Armadas, que chegaram a ter na região um efetivo militar de 550 mil soldados, na tentativa de impedir a formação de um Estado comunista, no sul do Vietnã, os norte-americanos perderam, além da guerra, 55 mil homens.

No ano de 1965, uma tropa composta por 35 mil fuzileiros e pára-quedistas desembarcaram em São Domingo (República Dominicana) para impedir a escalada comunista. O país já fora ocupado, pelos americanos, de 1916 a 1924.

Em agosto de 1925 as tropas yankees sairam da Nicarágua depois de treze anos de ocupação; porém, em dezembro de 1926, desembarcaram novamente com 2000 soldados para enfrentar Augusto Cesar Sandino.

Nos anos oitenta, se inicia a invasão silenciosa. O Irangate demonstrou claramente a intervenção dos Estados Unidos na Nicarágua como supridor de fundos e de armas dos "contras", utilizando Honduras como base principal das operações.

Em maio de 1954, aviões estadunidenses bombardearam as cidades de Porto Barrio e Porto São José, na Guatemala. Em 17 de abril de 1961, devidamente autorizado pelo presidente John Kennedy, a CIA organizou a invasão de Cuba estabelecendo uma cabeça-de-praia na Baia dos Porcos.

A intervenção no Chile e a deposição do presidente Salvador Allende, em setembro de 1973, é amplamente conhecida devido aos documentos secretos da ITT, ao informe Covert Action apresentado ao Senado norte-americano pela Comissão Church e outros documentos recentemente levantados.

Na data de 23 de outubro de 1983, os americanos bombardeiam posições sírias no Líbano, depois de acusar a Síria por um atentado ao quartel-general americano em Beirute.

Em 25 de outubro de 1983, cerca de 1.900 soldados americanos desembarcam na pequena ilha de Granada, no Caribe, onde o primeiro-ministro acabara de ser assassinado. O objetivo alegado para a invasão era impedir a expansão do comunismo na América Latina.

No dia 15 de abril de 1986, os EUA bombardearam bases militares em Trípoli e Bengazi alegando que estavam ocorrendo vários atentados contra cidadãos norte-americanos, naquelas localidades.

Em 20 de dezembro de 1989, os EUA invadem o Panamá com 24.000 marines que somaram-se aos 12.000 permanentemente estabelecidos, à época naquele país. Nessa oportunidade, aproveitaram para prender o presidente Manoel Noriega e conduzí-lo acorrentado a um cárcere na Flórida, julgá-lo e condená-lo à prisão perpétua. Guillermo Endara que possuia vínculos muito estreitos com os invasores, foi juramentado presidente na base militar norte-americana de Fort Gulick, na zona do canal.

A operação "Tempestade no Deserto" desencadeada durante a Guerra do Golfo, em 1991, tinha como objetivo libertar o Kuwait, ocupado pelas tropas do presidente iraquiano Saddam Hussein, arquiinimigo dos estadunidenses.

Ainda em 1991, a CIA infiltrou-se em Porto Príncipe para comandar o afastamento do presidente Aristide.

No ano de 1993, o presidente Bill Clinton ordena um ataque à instalações militares iraquianas, em retaliação a um suposto atentado contra o ex-presidente George W. Bush, em visita ao Kuwait.

Já em 1995, os EUA enviam tropas para Tuzla, no norte da Bósnia, para garantir a assinatura do acordo de paz entre Sérvia, Croácia e Bósnia.

Durante o ano de 1998, em resposta a atentados anti-americanos na África, bombardeios simultâneos são feitos contra uma base terrorista islâmica no Afeganistão e uma fábrica de remédios em Cartum, suspeita de produzir armas químicas.

No transcorrer do ano de 1999, os americanos comandam os bombardeios da OTAN à Iugoslávia até a retirada das forças sérvias do Kosovo para deter a perseguição de minoria albanesa.

Atualmente, estamos assistindo a investida das forças militares estadunidenses no Afeganistão, em resposta aos violentos ataques terroristas perpetrados, simultaneamente, por fanáticos talibãs, nas cidades de Washington e Nova York.

A História é testemunha inconteste das intervenções hegemônicas dos EEUU, e tudo leva a crer que continuará da mesma maneira no transcorrer do Século XXI. A implementação do "Plano Colômbia" e os freqüentes pronunciamentos de autoridades norte-americanas, sobre a nossa soberania na Amazônia, certamente merecem uma profunda reflexão.

Diante deste catastrófico e preocupante cenário cabe-nos a seguinte indagação: até que ponto a Nação brasileira manter-se-á imune às demonstrações de violência explícita dos sobrinhos de "Tio Sam"?


  • o autor é Coronel-Aviador e Chefe da Divisão de Assuntos Internacionais da Escola Superior de Guerra

    Trabalho 3ºano CMA Bibliografia pré-selecionada

    Dicas de livro: O Mundo Contemporâneo, Autor Demétrio Magnoli
    Século XX: uma biografia não autorizada, Emir Sader
    Livros de Geografia e História do Ensino Médio em geral

    http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/eua_monroe.htm
    http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/roosevelt_dolar.htm
    http://www.brasilescola.com/geografia/doutrina-monroe.htm
    http://64.233.169.104/search?q=cache:hjPGt2FlZkUJ:www.vestibular1.com.br/revisao/doutrina_monroe.doc+doutrina+monroe&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=5&gl=br
    http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/a-doutrina-monroehttp://www.vestibulareconcursos.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=325
    http://www.unificado.com.br/calendario/12/doutrina_monroe.htm
    http://www.direitoshumanos.usp.br/counter/Doc_Histo/texto/Doutrina_Monroe.html
    http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/euaxmexico.htm
    http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/2004/09/07/000.htm
    http://diplo.uol.com.br/2003-05,a649http://meuartigo.brasilescola.com/historia-geral/estados-unidosdestino-manifesto.htm
    http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=663
    http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/2002/10/06/000.htm

    quarta-feira, abril 16, 2008

    Matilde, fale-nos sobre o Quênia

    Os racialistas daqui conhecem os de lá. Juntos, participam de redes internacionais de ONGs, patrocinadas pelas mesmas organizações e fundações filantrópicas, que promovem incontáveis seminários sobre diversidade, etnia e raça. Eles estiveram todos no Fórum Social Mundial de Nairóbi, no Quênia, há um ano. Duvido que os racialistas daqui não saibam que os de lá não acreditam na existência de “afrodescendentes”, pois reconhecem que não há algo como uma “cultura africana”. Mas os racialistas de lá, como os daqui, repelem os conceitos de nação e cidadania, dedicando-se, noite e dia, a traçar linhas divisórias entre etnias e a advogar políticas de ação afirmativa baseadas em classificações étnicas.
    África, de fato, não existe a não ser como denominação geográfica. Figuras como uma “cultura africana” ou “africanidade” são artefatos ideológicos: a única característica geral da África é a diversidade. Mas essa diversidade expressa-se em múltiplos níveis, desde o pequeno clã até grandes nações. Ela está em fluxo permanente e não pode ser congelada nas categorias étnicas elaboradas pelos colonizadores, que também são artefatos ideológicos.
    Nos tempos coloniais, sob os britânicos, o censo do Quênia adotou o procedimento de classificar os habitantes do país segundo critérios fabricados pela antropologia européia. Depois da independência, a etnia infiltrou-se no jogo político, convertendo-se em fonte de chantagens sem fim das elites tribais em busca de cargos governamentais e sinecuras públicas. Em 1999, quando o regime de Daniel Arap Moi afundava-se em uma crise terminal, o censo aboliu as classificações étnicas. O Minority Rights Group, ONG britânica financiada, entre outros, pela Fundação Ford, faz campanha ativa no Quênia pela classificação censitária das etnias – e oferece como subsídio o seu próprio quadro étnico do país, que é uma reconstrução atualizada da “etnografia científica” dos colonizadores.
    Sob Jomo Kenyatta e Daniel Arap Moi, o Quênia conheceu quatro décadas de governos autoritários que exploraram episodicamente, em seu próprio proveito, a carta das divisões étnicas. Em 1992, Arap Moi incendiou as paixões étnicas no Vale do Rift, a mais diversificada província do país, jogando os nativos kalenjin contra os “forasteiros”, especialmente os kikuyu. O advento da democracia, em 2002, trouxe um governo amparado numa coalizão partidária interétnica e a promessa de um país para todos os seus cidadãos.
    A carta étnica desapareceu momentaneamente da cena institucional, mas ressurgiu pelas mãos das ONGs internacionais. Os kikuyu, que habitam predominantemente as terras férteis da Província Central, formam a etnia mais numerosa e representam cerca de 22% da população queniana. Os racialistas de lá, manipulando inescrupulosamente estatísticas fiscais e de renda, acusam os kikuyu de se apropriarem da maior parcela dos recursos nacionais. Esse argumento, reproduzido à exaustão na mídia queniana, tornou-se um pretexto político eficiente quando a coalizão de governo, devastada pela corrupção e pelas rivalidades entre seus líderes, implodiu em duas facções inconciliáveis.
    O presidente Mwai Kibaki é kikuyu. Seu rival, Raila Odinga, é luo. Eles não se lembravam disso quando eram aliados. Em 2006, o senador Barack Obama, que rejeita os conceitos de raça e etnia, visitou o Quênia, terra natal de seu pai. “Vocês começam a ver o ressurgimento das identidades étnicas como base para a política”, alertou, conclamando as pessoas a votarem em programas, não em etnias. Mas, então, Kibaki e Odinga já haviam redescoberto suas ancestralidades e identidades étnicas. De 27 de dezembro para cá, cerca de mil quenianos foram assassinados e 250 mil tornaram-se refugiados internos.
    Os manuais de história dizem que as potências européia dividiram a África, a partir da Conferência de Berlim de 1885. Essa é uma idéia curiosa, pois nos tempos pré-coloniais existiam mais de 10 mil entidades políticas na África. Os europeus, efetivamente, provocaram uma brutal unificação da África, comprimindo essas milhares de entidades em poucas dezenas de Estados. Mas o colonialismo durou menos de um século, tempo insuficiente para exterminar a diversidade prévia, que se reinventa incessantemente no interior dos Estados africanos independentes. Essa diversidade é a fonte na qual se saciam os promotores das políticas étnicas.
    Uma coisa é reconhecer as diferenças de língua, cultura, crenças e religiões, exigindo que sejam respeitadas, e outra muito distinta é fixá-las na lei e convertê-las em categorias políticas. A primeira atitude decorre do princípio dos direitos humanos. A segunda corresponde a uma operação de poder. As ONGs racialistas fabricam as armas políticas que são usadas nas “guerras étnicas”.
    Não é verdade que os quenianos estão se matando como selvagens. A verdade é que milícias controladas pelos líderes políticos estão matando selvagemente os quenianos. Não fale sobre cartões de crédito, ex-ministra Matilde Ribeiro. Fale-nos sobre o Quênia.
    Demétrio Magnoli

    Cenários geopolíticos no Oriente Médio

    Nelson Bacic Olic


    Apesar da dinâmica e do entrelaçamento dessas questões, que têm ainda como pano de fundo o interesse internacional nas enormes reservas petrolíferas dos países do Golfo Pérsico e o avanço do extremismo islâmico, pode-se tentar levantar alguns pontos que, ao que tudo indica, deverão ter continuidade nos próximos anos.

    O primeiro deles é que os Estados Unidos continuarão a ser a potência com mais influência na região. Todavia, ela será menor do que já foi no passado, pois as políticas e estratégias norte-americanas para a região serão cada vez mais contestadas por outros atores da cena internacional, como a União Européia, a Rússia e a China.

    O segundo é que o Irã parece cada vez mais se firmar como um dos Estados mais poderosos da região em virtude não só da riqueza fornecida pelo petróleo, mas também porque sua influência tem se fortalecido no Iraque e junto a grupos como o Hezbollah libanês e o Hamas palestino.

    Já Israel, uma outra potência regional, tem dois grandes trunfos: o incondicional apoio dos sucessivos governos dos Estados Unidos e a posse de um arsenal nuclear. No entanto, continua sendo um “corpo estranho” numa região dominantemente árabe-muçulmana e não tem conseguido equacionar as relações com seus vizinhos árabes e muito menos buscar soluções satisfatórias com a população palestina. Esta situação representa um grande obstáculo para que se estabeleça um processo duradouro de paz na região.

    Por outro lado, a situação do Iraque deverá permanecer caótica pelo menos nos próximos anos, o terrorismo continuará atuante na região e o Islã persistirá preenchendo o vazio político deixado pelo fracasso de modelos sócios econômicos ocidentais implementados sem sucesso por alguns dos governos de países da região. De maneira geral, os regimes dos países árabes continuaram mantendo-se com grande grau de autoritarismo.

    Sob o ângulo econômico o petróleo, principal matéria-prima energética extraída na região, continuará apresentando preços cada vez mais elevados e, paradoxalmente, o comércio intra-regional permanecerá praticamente com pouca expressão.

    De satélites soviéticos a “tigres” da Europa

    Nelson Bacic Olic

    Além desses três países o Mar Báltico banha também os litorais da Finlândia, Suécia, Alemanha, Polônia, Rússia e Dinamarca. Este último país, juntamente com a Suécia, tem o controle sobre os estreitos que ligam o Báltico ao Mar do Norte. Ao longo dos últimos séculos a Suécia, a Polônia, a Alemanha e a Rússia foram responsáveis pelas turbulências políticas que atingiram os três países região.


    Letônia, Estônia e Lituânia possuem reduzida dimensão, perfazendo juntas cerca 175 mil km2, superfície um pouco inferior ao estado do Paraná. A Lituânia é a mais extensa e a Estônia a de menor área. O total de habitantes dos três países é de cerca de 7,5 milhões de pessoas (mais ou menos a população de Pernambuco), sendo também a Lituânia o mais populoso dos Estados. Vale destacar que as populações dos três países embora tenham sofrido influência dos países próximos mais fortes, apresentam expressivas diferenças culturais em relação às sociedades germânicas, eslavas e escandinavas presentes nos países vizinhos.

    Apesar das semelhanças, existem algumas diferenças entre os três países no que concerne aos aspectos etno-culturais. Os estonianos, por exemplo, estão ligados ao grupo de línguas e povo fino-ugrianos, enquanto letões e lituanos fazem parte do grupo báltico, no seio da família etnicamente eslava. Sob o aspecto religioso, os lituanos são majoritariamente católicos (influência polonesa) enquanto letões e estonianos são dominantemente protestantes.

    Pequenos e fracos, os Países Bálticos estiveram sob o jugo sucessivo de dinamarqueses, suecos, poloneses e alemães e, a partir do século XVIII, passaram para o domínio do Império Russo. Só ao final da Primeira Guerra Mundial, com o fim do império dos czares, é que os povos das três repúblicas bálticas obtiveram sua soberania, tornando-se independentes.

    No entanto, a independência teve curta duração. O Pacto Germano-Soviético (Molotov-Ribbentrop) firmado entre a Alemanha nazista e a União Soviética em 1939 fez com que os países Bálticos passassem para o controle soviético. Dois anos mais tarde, com a invasão da Alemanha nazista, os povos bálticos foram “libertados” do domínio soviético.

    Entre 1944 e 1945, devido ao recuo das forças nazistas por conta do avanço das tropas soviéticas, a URSS retomou o controle sobre a região, cuja população sofreu fortes represálias, acusada de colaboracionismo com os alemães. Foi a partir dessa retomada que o governo soviético estimulou a imigração de russos para a região. É isso que explica a importância numérica de minorias de origem russa nos três países. Na Estônia e na Letônia, os russófonos são cerca de 30% da população, enquanto na Lituânia eles perfazem um pouco menos de 10%.
    A partir de 1945, os países Bálticos passaram a ser três das quinze repúblicas que compunham a URSS. Esta situação se perpetuou até o final da década de 1980, quando os três países evoluíram em direção à independência em função da crise que levou à desintegração da URSS. A Lituânia foi a primeira república a se separar da URSS, em março de 1990. Em agosto de 1991, o mesmo se verificou com a Estônia e Letônia. Os países Bálticos foram as únicas das 15 repúblicas que compunham a União Soviética que decidiram não participar da Comunidade de Estados Independentes (CEI).

    Novos rumos

    Depois da independência, a evolução dos países Bálticos tem sido mais ou menos similar, tendo todos eles acumulado uma série de sucessos, especialmente no âmbito econômico, a ponto de serem considerados como os mais promissores dos novos membros da União Européia.

    Os três países, nos primeiros anos de sua vida independente, passaram por grandes dificuldades econômicas em função do fechamento dos grandes conglomerados estatais russos, da perda de mercado em relação aos países da Comunidade de Estados Independentes (CEI) e da supressão do controle de preços. O resultado foi uma grande baixa da produção e crescimento expressivo das taxas de inflação. A economia só começou a se recuperar após1994 e a crescer de forma acelerada a partir de 2000.

    Depois disso, a perspectiva de serem aceitos como membros da União Européia levou a um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da ordem de 7 a 8% nos últimos anos. Esse crescimento recente do PIB dos países Bálticos é o maior que vem se registrando em toda a Europa. Do ponto de vista do comércio externo, União Européia é a principal cliente e fornecedora de produtos, perfazendo cerca de 2/3 do intercâmbio comercial dos países Bálticos.

    Em função dos ritmos de “chineses” de crescimento econômico dos últimos anos, já há aqueles que, comparando a evolução econômica dos países Bálticos a dos Tigres Asiáticos, vêm denominando-os de “tigres” da Europa.

    Espelhos, uma história quase universal - América Latina

    EDUARDO GALEANO


    No fim da Inconfidência Baiana, o poder colonial indultou todos, com quatro exceções: Manoel Lira, João do Nascimento, Luís Gonzaga e Lucas Dantas foram enforcados e esquartejados. Os quatro eram negros, filhos ou netos de escravos. Há quem acredite que a Justiça é cega.

    Alguns capítulos do livro "Espelhos/ Uma história quase universal", de Eduardo Galeano, que em breve estará nas livrarias:

    O herói
    Como teria sido a guerra de Tróia contada do ponto de vista de um soldado anônimo? Um grego a pé, ignorado pelos deuses e desejado apenas pelos abutres que sobrevoam as batalhas? Um camponês metido a guerreiro, cantado por ninguém, por ninguém esculpido? Um homem qualquer, obrigado a matar e sem o menor interesse em morrer pelos olhos de Helena?

    Teria pressentido esse soldado o que Eurípedes confirmou depois? Que Helena nunca esteve em Tróia, que somente sua sombra esteve ali? Que dez anos de matanças ocorreram por uma túnica vazia?

    E se esse soldado sobreviveu, o que lembrou?

    Quem sabe.

    Talvez o cheiro. O cheiro da dor, e simplesmente isso.

    Três mil anos depois da queda de Tróia, os correspondentes de guerra Robert Fisk e Fran Sevilla contam que as guerras têm cheiro. Eles estiveram em várias, sofreram-nas por dentro, e conhecem esse cheiro de podridão, quente, doce, pegajoso, que se mete por todos os poros e instala-se no corpo. É uma náusea que jamais te abandonará.

    Americanos
    Conta a história oficial que Vasco Núñez de Balboa foi o primeiro homem que viu, desde um cume do Panamá, os dois oceanos. Os que ali viviam, eram cegos?

    Quem colocou seus primeiros nomes no milho e na batata e no tomate e no chocolate e nas montanhas e nos rios da América? Hernán Cortés, Francisco Pizarro? Os que ali viviam, eram mudos?

    Os peregrinos do Mayflower escutaram: Deus dizia que a América era a Terra Prometida. Os que ali viviam, eram surdos?

    Depois, os netos daqueles peregrinos do norte apoderaram-se do nome e de todo o resto. Agora, americanos são eles. Os que vivemos nas outras Américas, o que somos?

    Fundação dos desaparecimentos
    Milhares de mortos sem sepultura deambulam pela pampa argentina. São os desaparecidos da última ditadura militar.

    A ditadura do general Videla aplicou em escala jamais vista o desaparecimento como arma de guerra. Aplicou, mas não inventou. Um século antes, o general Roca utilizou contra os índios esta obra prima da crueldade, que obriga cada morto a morrer várias vezes e que condena seus queridos a ficarem loucos perseguindo sua sombra fugitiva.

    Na Argentina, como em toda a América, os índios foram os primeiros desaparecidos. Desapareceram antes de aparecer. O general Roca chamou de conquista do deserto a sua invasão das terras indígenas. A Patagônia era um espaço vazio, um reino do nada, habitado por ninguém.

    E os índios continuaram desaparecendo depois. Os que se submeteram e renunciaram à terra e a tudo, foram chamados de índios reduzidos: reduzidos até desaparecer. E os que não se submeteram e foram vencidos à bala e sabraços, desapareceram transformados em números, mortos sem nome, nos comunicados militares. E seus filhos desapareceram também: repartidos como butim de guerra, chamados com outros nomes, esvaziados de memória, escravinhos dos assassinos de seus pais.

    Pai ausente
    Robert Carter foi enterrado no jardim.

    Em seu testamento, pediu descansar debaixo de uma árvore de sombra, dormindo em paz e escuridão. Nenhuma pedra, nenhuma inscrição.

    Este patrício da Virgínia foi um dos mais ricos, talvez o mais, entre todos aqueles prósperos proprietários que se tornaram independentes da Inglaterra.

    Apesar de que alguns pais fundadores dos Estados Unidos tinham má opinião sobre a escravidão, nenhum deles libertou seus escravos. Carter foi o único que desacorrentou seus quatrocentos e cinqüenta negros para deixá-los viver e trabalhar segundo sua própria vontade e prazer. Libertou-os gradualmente, cuidando que nenhum fosse lançado no desamparo, setenta anos antes de que Abraham Lincoln decretasse a abolição.

    Esta loucura condenou-o à solidão e ao esquecimento.

    Deixaram-no sozinho seus vizinhos, seus amigos e seus parentes, todos convencidos de que os negros livres ameaçavam a segurança pessoal e nacional.

    Depois, a amnésia coletiva foi a recompensa por seus atos.

    A Justiça vê
    A história oficial do Brasil continua atraindo inconfidências, deslealdades, às primeiras revoltas pela independência nacional.

    Antes que o príncipe português se transformasse em imperador brasileiro, houve várias tentativas patrióticas. As mais importantes foram as de Minas Gerais e da Bahia.

    O único protagonista da Inconfidência Mineira que foi enforcado e esquartejado, Tiradentes, era um militar de baixa graduação. Os demais conspiradores, senhores da alta sociedade mineira fartos de pagar impostos coloniais, foram indultados.

    No fim da Inconfidência Baiana, o poder colonial indultou todos, com quatro exceções: Manoel Lira, João do Nascimento, Luís Gonzaga e Lucas Dantas foram enforcados e esquartejados. Os quatro eram negros, filhos ou netos de escravos.

    Há quem acredite que a Justiça é cega.

    Olympia
    São femininos os símbolos da revolução francesa, mulheres de mármore ou bronze, poderosas tetas nuas, gorros frígios, bandeiras ao vento.

    Mas a revolução proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, e quando a militante revolucionária Olympia de Gouges propôs a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, a guilhotina cortou sua cabeça.

    Ao pé do cadafalso, Olympia perguntou:

    – Se as mulheres estamos capacitadas para subir na guilhotina, por que não podemos subir nas tribunas públicas?

    Não podiam. Não podiam falar, não podiam votar.

    As companheiras de luta de Olympia de Gouges foram trancadas no hospício. E pouco depois de sua execução, foi a vez de Manon Roland. Manon era a esposa do ministro do Interior, mas nem isso pôde salvá-la. Foi condenada por sua antinatural tendência à atividade política. Ela tinha traído sua natureza feminina, feita para cuidar do lar e parir filhos valentes, e havia cometido a mortal insolência de meter o nariz nos masculinos assuntos de estado.

    E a guilhotina caiu de novo.

    Os invisíveis
    Em 1869, o canal de Suez tornou possível a navegação entre dois mares.

    Sabemos que Ferdinand de Lesseps foi autor do projeto, que o paxá Said e seus herdeiros venderam o canal aos franceses e aos ingleses em troca de pouco ou nada, que Giuseppe Verdi compôs a ópera Aída para que fosse cantada na inauguração e que noventa anos depois, após uma longa e dolorosa disputa, o presidente Gamal Abdel Nasser conseguiu que o canal fosse egípcio.

    Quem lembra dos cento e vinte mil presidiários e camponeses, condenados a trabalhos forçados, que construindo o canal caíram assassinados pela fome, a fadiga e a cólera?

    Em 1914, o canal do Panamá abriu um talho entre dois oceanos.

    Sabemos que Ferdinand de Lesseps foi autor do projeto, que a empresa construtora faliu, em um dos mais estrondosos escândalos da história da França, que o presidente dos Estados Unidos, Teddy Roosevelt, apoderou-se do canal e do Panamá e de tudo o que encontrou pelo caminho, e que sessenta anos depois, após uma longa e dolorosa disputa, o presidente Omar Torrijos conseguiu que o canal fosse panamenho.

    Quem lembra dos operários antilhanos, indianos e chineses que caíram construindo o Canal? Por cada quilômetro morreram setecentos, assassinados pela fome, a fadiga, a febre amarela e a malária.

    As invisíveis
    Mandava a tradição que os umbigos das recém nascidas fossem enterrados debaixo da cinza do fogão, para que cedo aprendessem qual é o lugar da mulher, e que daí não se sai.

    Quando estourou a revolução mexicana, muitas saíram, mas levando o fogão nas costas. Por bem ou por mal, por seqüestro ou por vontade, seguiram os homens de batalha em batalha. Levavam o bebê grudado na teta e nas costas as panelas e as caçarolas. E as munições: elas encarregavam-se de que não faltassem tortillas nas bocas nem balas nos fuzis. E quando o homem caía, empunhavam a arma.

    Nos trens, os homens e os cavalos ocupavam os vagões. Elas viajavam nos tetos, rogando a Deus que não chovesse.

    Sem elas, soldaderas, cucarachas, adelitas, vivanderas, galletas, juanas, pelonas, guachas, essa revolução não teria existido.

    Nenhuma recebeu pensão.



    Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

    terça-feira, abril 15, 2008

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